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Cultura

O Amapá do Mestre Sacaca levou emoção, encantarias e ancestralidade afro-indígena da Amazônia Negra para a Sapucaí

Jornal O Amapá | 18/02/2026

O Amapá do Mestre Sacaca levou emoção, encantarias e ancestralidade afro-indígena da Amazônia Negra para a Sapucaí
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A Marquês de Sapucaí aplaudiu e cantou o Amapá na primeira noite de apresentação das escolas de samba do Grupo Especial, quando a Estação Primeira de Mangueira entrou na avenida com o enredo “Mestre Sacaca do Encanto Tucuju – O Guardião da Amazônia Negra”, um desfile da cultura, ancestralidade e identidade encabeçada por Raimundo dos Santos Souza, o Doutor da Floresta. O enredo escolhido por Mangueira segue o padrão da agremiação, que tem a trajetória marcada por temas que destacam o Brasil sob o olhar da resistência, tradição e mestres da cultura popular. 

O refrão “Chamei o povo daqui, juntei o povo de lá” provocou no público o sentimento de brasilidade e orgulho conjunto, sem barreiras geográficas, com saudações à natureza, evocação das forças ancestrais, desde a comissão de frente, que encantou o público com as onças iluminadas, até o final do desfile, que contou com 3 mil componentes, e se desenvolveu em 27 alas, 5 alegorias e 1 tripé. 

O Amapá foi exaltado em cinco encantos, e o Mestre Sacaca é invocado espiritualmente no primeiro, no ritual do Turé, e se manifesta através do Xamã Babalaô, que retorna à vida para continuar sua missão pela Amazônia Negra. Do Oiapoque, a Mangueira levou as concepções indígenas, sob o olhar cuidadoso do Coletivo Waçá-Wara; do marabaixo, os rituais do Encontro dos Tambores; e das florestas, as encantaria e garrafadas, conhecimentos adquiridos na imersão de pesquisadores da Mangueira na vida e cultura amapaense.


Joãozinho Gomes, poeta amazônida e compositor do samba de enredo, e a intérprete Patrícia Bastos, na concentração da Mangueira
Foto: Max Renê

A secretária de Cultura, Clicia Di Miceli, falou do suporte técnico dado pelo Governo do Estado do Amapá, por intermédio da Secretaria de Cultura e Fundação Marabaixo, para o desenvolvimento do enredo e escolha do samba de enredo. 

“Foram meses de imersão em nossas tradições e costumes, vivências, laboratórios e entrevistas com os mantenedores de nossa cultura, de indígenas aos afrodescendentes, sábios das florestas e das academias, que se dispuseram a colaborar e enriquecer o enredo. Um trabalho muito interativo, a Mangueira tinha suas sugestões, e o GEA também apresentou mapeamentos para que a equipe da escola mergulhasse na história, cultura e geografia, e criasse seus recortes conforme o que viveram no período de cooperação de conhecimentos. Os amapaenses participaram de todo o processo, e com orgulho podemos dizer que nosso poeta Joãozinho Gomes foi gigante na composição poética”, destacou


A secretária de Cultura, Clícia Di Miceli, e Cleane Ramos, marabaixeira do Quilombo do Curiaú
Foto: Max Renê

A presença de amapaenses na Sapucaí mostrou que o enredo entrou no coração e empolgou os que estavam na plateia e também quem optou por desfilar na Mangueira.  

A família do mestre Sacaca, incluindo sua viúva Madalena, filhos e netos, foram destaques no último carro. Patrícia Bastos, intérprete amapaense, cantou o samba de empolgação. Personalidades negras de várias gerações também desfilaram, como Francisco Lino, fundador de Boêmios do Laguinho; Pedro Bolão, quilombola que mantém a tradição de confeccionar caixas de marabaixo; Joaquina Jacarandá, pioneira de Mazagão; a militante do movimento negro, Alzira Nogueira; e a jovem quilombola Cleane Ramos, que brilharam nas alegorias. Na bateria, 15 tocadores de caixa de marabaixo completaram o ritmo dos tamborins e surdos. Nas alas, camarotes e arquibancadas, centenas de amapaenses se distribuíram nesta homenagem.


Viúva do Mestre Sacaca, Maria Madalena, presente no carro que fechou o desfile da Estação Primeira de Mangueira
Foto: Max Renê


O sambista Francisco Lino da Silva e a secretária de Cultura, Clícia Di Miceli
Foto: Max Renê

“Estar na Sapucaí, falando de nossa terra, de um vizinho que foi presente em nossas vidas, não tem como medir a emoção, me sinto honrada e abençoada”, disse a pedagoga Gizele Menezes, que saiu na ala de São Thiago.


Gizele Menezes, pedagoga amapaense, desfilou na ala em homenagem à festa de São Tiago
Foto: Arquivo Pessoal


Marcela e Mauro Mansano, vieram da Alemanha para assistir o desfile da verde e rosa em homenagem ao Amapá
Foto: Arquivo Pessoal

A macapaense Marcela Coutinho e o paulistano Mauro Mansano moram em Berlin, na Alemanha, e vieram ao Brasil para assistir ao desfile da Mangueira. O casal se preparou para o grande dia e não se decepcionou.

“Muito emocionante ver o carro abre ala com os barcos, rios e florestas, o Sacaca, as garrafadas, muito lindo o Amapá ser representado em um palco do mundo que é a Sapucaí”, disse Marcela, que foi curada de asma com os remédios naturais feitos por Sacaca.

Os saberes, a magia das florestas e das águas, o misticismo, também foi aclamado pela imprensa e crítica especializada em carnaval, que apreciou a verde e rosa mostrando o movimento das marés, a espiritualidade, encantarias, as raízes afro-indígenas que identificam e diferenciam o estado do Norte do Brasil. Nos comentários, os profissionais apontam o desfile da Mangueira como uma das apresentações mais consistentes da noite e credenciando-se entre as favoritas para retornar no Sábado das Campeãs.

O desfile foi acompanhado também em Macapá, na praça da Bandeira, onde o Governo do Estado instalou um telão para o público, que se empolgava a cada novidade que entrava na avenida. Vibrando na intensidade da emoção coletiva, o governador Clécio Luis e o senador Davi Alcolumbre assistiram ao desfile na praça até o amanhecer, quando o último encanto desfilou na Marquês de Sapucaí.

O Brasil conhecerá os campeões do carnaval no Rio de Janeiro nesta quarta-feira (18), quando a Liga das Escolas de Samba carioca abre os envelopes com as notas dos jurados, a partir de 15:50. Entre os amapaenses, a vitória da Estação Primeira de Mangueira é esperada com ansiedade e festa.